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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Empraba: Podridão cinzenta, foto Olavo Roberto Sônego

 Podridão cinzenta e podridão nobre são causadas por um fungo chamado botrytis cinérea. O mesmo fungo é um destruidor e um realçador. 

Se as uvas forem atingidas por esse fungo durante um período quando ainda são imaturas, vira uma praga que se espalha rapidamente e invade e desintegra as células na uva, que apodrecem. A infecção ocorre especialmente com condições de alta umidade e pouca areação (vegetação densa). Com uma ruptura na casca por um inseto a uva vira uma gosma cinzenta. Se o tempo fica úmido, e sem ser combatido, essa forma malévola de fungo pode destruir safras inteiras.

 
Botrytis - podridão nobre, uvas oraniensteiner, Foto: Stoneboat Vineyards

Para o mesmo fungo criar uma podridão nobre as uvas precisam chegar em plena maturidade antes de serem infectadas. As uvas maduras ricas em açúcar, fornecem uma fonte de alimento para o fungo, que adiciona sabores típicos de botrytis lembrando de mel. Com tardes secas e a influência do fungo, as bagas desidratam ficando doces e concentradas. Condições ideais para podridão nobre são névoa da manhã,  por exemplo quando há um lago próximo, e com dias ensolarados quentes e secos.

Botrytis versão nobre - Château d'Yquem, Sauternes, foto: Château d'Yquem

 Em regiões úmidas, o combate contra podridão cinzenta é geralmente feito com fungicidas. Isso complica se o viticultor gostaria de usar leveduras indígenas.  As leveduras são também fungos, a podridão cinzenta e as leveduras são como primos. Matando um, mata ou outro. Então, nesse processo de eliminar a podridão cinzenta, já complica o uso de leveduras selvagens e fica necessário usar leveduras cultivadas mais fortes. Mas se o uso é intenso de fungicidas, mesmo fermentações com leveduras cultivadas, podem chegar a ter problemas. Marcel Lapierre conta que no caso da região de Beaujolais, muitos dos problemas de podridão cinzenta foram causados por causa do uso de fertilizante e cultivo de alto rendimento, virando um circulo vicioso com mais forte uso em conseqüência de fungicidas.

domingo, 21 de agosto de 2011

Leveduras selvagens são as que chegam com as uvas, e leveduras residentes são as leveduras que ficam na vinícola, no chão, em tanques, equipamentos etc. Leveduras cultivadas são Sacchorymeces cerevisiae, que existem no meio ambiente naturalmente em um grande variedade de estirpes. Sem essa levedura não é possível transformar mosto em vinho, mas nas uvas existem também várias outras leveduras.

 Existe uma discussão se fermentações sem leveduras cultivadas agem por causa de leveduras residentes ou selvagens. Se for leveduras residentes não seria realmente algo chegando do vinhedo,  seria restos de leveduras cultivadas agindo.¹


Pinot noir fermentando, foto: Mark Smith,  Stefano Lubiano Wines


Um viticultor da Nova Zelândia foi envolvido em estudos em diferentes vinícolas em dois países, e concluiu que o que domina são as leveduras da própria vinícola, comparadas ao que chega com as uvas.  Por isso ele acha que seria mais apropriado chamá-las leveduras residentes em vez de selvagens. Durante os anos, a levedura dominante se instala na vinícola e fica a levedura residente. Quase todas as leveduras residentes que encontraram nas vinícolas foram sacchorymeses bayanus, também chamada 769 ou EC1118 'Prise de Mousse', a levedura usada em Champagne.  

De outro lado, enólogos e vinícolas que safra após safra usam leveduras indígenas, argumentam que como eles lavam e higienizam minuciosamente o chão, os tanques, e os equipamentos, acham que com cada safra as leveduras chegando com as uvas vão começar a ter mais influência, e vão ter menos leveduras residentes agindo.

Existem também casos onde o viticultor argumenta que está fazendo vinhos com leveduras selvagens, mas na verdade ele inócula o mosto com leveduras que ele cultivou do próprio vinhedo. Nesse caso chegamos mais perto de leveduras disponíveis no mercado. É bom lembrar que não há nada artificial ou industrial com as leveduras comerciais, que são leveduras naturais de vinhedos isoladas e cultivadas em laboratórios. A diferença nesse caso seria que ele cultiva leveduras especificas do lugar.

¹ No caso de vinificação tradicional como é comum em Borgonha, onde leveduras cultivadas nunca foram usadas, seria leveduras selvagens que viraram residentes.

Fontes:
Ric Einstein 'The Opinionated Red Bigot' 'Wild Yeast, Brett, Screwcaps'

sábado, 13 de agosto de 2011



'Kami no Shizuku' (gotas de deus) é uma popular série de revista em quadrinhos japonês (chamado ‘manga’) que foi adaptado para uma novela na televisão no Japão.  A história conta que dois irmãos ficam sabendo no testamento que um deles seria herdeiro do pai depois de corretamente degustar e identificar 12 vinhos as cegas, chamados os doze apóstolos, e finalmente descobrir o décimo terceiro vinho chamado ‘as gotas de deus’.  A série virou um sucesso no Japão, com uma audiência enorme assistindo as deliberações e degustações dos prestigiosos vinhos como Latour, Lafite-Rotschild, Cos d’Estournel, Chateau d’Yquem, Romanée Conti etc. 

Côtes de Francs é uma apelação humilde, comparada a famosa apelação St-Emilion, apenas 10 km de distância. Côtes de Francs está em uma região alta, bem ensolarada, pouca chuva e ideal para merlot, cabernet franc e cabernet sauvignon. Cabernet franc, que chega na maturidade fisiológica mais cedo comparado a cabernet sauvignon, têm bastante cultivo.

Nessa apelação existe uma excelente vinícola, não até então famosa, chamada Château Le Puy, de 25 hectares, uma propriedade de Jean-Pierre Amoreau e do filho Pascal Amoreau . Numa manhã em março de 2009, eles se surpreenderam em receber um monte de faxes com pedidos do Japão. Não tinham ideia que 7 milhões de japoneses assistiram ao drámatico final onde o décimo terceiro vinho, 'As Gotas de Deus',  foi revelado ser Château le Puy 2003. Eles perguntaram ao distribuidor no Japão o que estava acontecendo, e assim foram informados dos fatos.

Acharam uma situação até bizarra, mas claro,também  ficaram orgulhosos. Continuaram com os pés no chão, e quando propuseram pagar 500-1000 euros por uma garrafa de Château le Puy 2003 nos mercados asiáticos, acharam melhor suspender todas as vendas para terminar com a especulação. Pensaram que seria melhor cuidar de todos os clientes fiéis que os acompanharam nos últimos 50 anos. Mantiveram o preço normal, em torno de 19,90 euros e cuidaram de reservar quantias para os clientes antigos e para os mercados tradicionais em vez de vender a safra inteira pelos preços astronômicos na Ásia.

Da mesma maneira simples e simpática que receberam o prestígio de ser as Gotas de Deus, eles continuam com um conceito natural na viticultura e vinificação. Os vinhos são feitos de um jeito tradicional, ao contrário da nova tendência em Bordeaux de vinificação redutiva. Eles não gostam dessa novidade, achando um estilo vinculado para agradar compradores no exterior. O avô de Pascal cultivava orgânico no inicio do século muito antes que foi usado em marketing. Mudaram já em 1990 para cultivo biodinâmico, e em vez de modernas maneiras de vinificação acreditam em uma expressão dos vinhedos puros, com leveduras indígenas. Diminuíram o uso de dióxido de enxofre e algumas cuvées são feitas sem nada de sulfitos adicionados.





segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Foto: National Resources Conservation Service


 Essa é a opinião de Ron Laughton da vinícola biodinâmica Jasper Hill, em Heathcote, no estado australiano de Victoria.  Para muitos pode ser visto como um argumento extremo e controverso, que exclui a maior parte da viticultura do novo mundo. Mas Rob Laughton está convicto que viticultura deve ser seca, sem irrigação. Ele considera que plantas se desenvolveram antigamente de forma natural, sem manipulação do ser humano, e pensa que independente de qual planta você está cultivando, se você precisa irrigar, você está simplesmente no lugar errado. i)

Mesmo uma opinião controversa serve para lembrar algumas considerações importantes. No contexto das limitações dos recursos naturais no mundo, a preservação de água para gerações futuras é vital. O rastro de uso de água ‘water footprint’ demonstra que na média da produção global de vinho, precisa 120 litros de água para produzir uma taça de vinho de 125 ml.  Para produzir leite, o uso de água é ainda maior, e para fazer cerveja um pouco menos. O uso de água para produzir nossos alimentos básicos é surpreendentemente alto. ii)

Na Califórnia, a limitação é demonstrada pela severa falta de água. Os problemas são tão graves, que muitas pessoas que vivem na região percebem que isso vai ser uma das questões essenciais para sobrevivência do ser humano. A Califórnia depende completamente de um complexo sistema de fornecimento de água. Los Angeles é construída perto de um deserto que depende completamente desse sistema que agora chegou no limite. Califórnia em principio é uma região árida parecida ao Egito. Com fornecimento de água fixo e limitado e com uma população que vai chegar a 50 milhões no meio de século, os californianos sabem que eles precisam mudar radicalmente a maneira do uso de água. ‘The Delta Stewardship Council’ tem uma ordem do governador de apresentar um plano com uma solução em janeiro de 2012. Mesmo com a falta de água, os californianos vivem com medo de chuvas extremas e inundações de rios, especialmente ao redor de Sacramento. O delta do rio Sacramento é a fonte das riquezas na Califórnia, fornecendo a água potável e água para a irrigação da agricultura intensa no estado, via um sistema de canais e barragens. Nos momentos de seca a demanda é tão alta que retira até grandes peixes como salmões de dentro das bombas. A população de peixes e o famoso salmão Chinook nesses rios estão acabando.
Os sistemas de canais e barragens foram desenhados com cálculos no clima dos anos 20, mas hoje em dia as suposições não são mais válidas com um clima mais extremo, com secas e chuvas fortes. Uma ideia seria fazer uma barragem ainda mais alta, maior, colocando mais terra abaixo da água, destruindo afluentes e ecossistemas.  Não há uma solução sem problemas, e a questão levantada seria se realmente a antiga ideia de bombear água para regiões desérticas para agricultura e viticultura é sustentável. iii)

Muitas outras regiões no mundo confrontam problemas similares com irrigação e conservação de água para um futuro sustentável. Na Europa, a irrigação na viticultura tradicionalmente não é permitida. As regras originalmente não eram para conservar água, mas para preservar a expressão das condições das diferentes regiões e climas. Com a irrigação, a influência do clima e condições são compensadas, e com resultado as safras ficam mais iguais e também a irrigação diminui a influência das diferentes regiões. O resultado é um vinho mais uniforme, com menos diferenças entre diferentes ‘terroirs’ e safras.
A Espanha, que tem várias regiões secas e áridas, legalizou a irrigação em 1996, o que estimulou o cultivo com maior rendimento em algumas partes do país. Na Itália e Portugal há várias regiões com irrigação na viticultura.  Nos casos em que a irrigação é feita em ampla escala, as raízes ficam mais na superfície do solo, e com alto rendimento de uvas com menos concentração de sabores. Fora da Califórnia, outras grandes regiões no novo mundo que dependem completamente de irrigação são regiões secas chilenas no Vale Central e Riverina na Austrália. A região árida do interior de New South Wales, chamada Riverina, foi a base do cultivo de frutas e uvas em grande escala, principalmente pelas famílias de imigrantes italianos. Em principio, irrigar terras desérticas é o jeito mais barato para produzir grandes volumes de vinhos baratos, mas esse começa a ser um cultivo preocupante para a sustentabilidade em geral.

De outro lado, com foco na qualidade existe viticultura com uma irrigação mais precisa, normalmente com irrigação por gota. Existem técnicas para estimular que raízes fiquem mais profundas, que dependam menos de irrigação e aumentem a qualidade da uva (pode ser gotas de um lado da raiz só com um estresse da videira que deixa de continuar a trabalhar duro fornecendo uvas mais concentradas). Assim eles conseguem uvas com tamanhos menores e com sabores mais intensos. Existem também muitas regiões como em Barossa na Austrália, que tradicionalmente sempre houve um cultivo seco sem irrigação, mas onde os viticultores têm uma ajuda de irrigação por gota, usada de uma maneira limitada, só em época de seca, apenas como um apoio em situações mais extremas. Com o aquecimento global, um clima mais irregular e extremo, com áreas ficando mais secas, muitos vinhedos vão começar a pensar em irrigação como apoio ou solução, também no sul da Europa. 
Ironicamente na França foi aprovado em 2007 a irrigação, mas sem aprovação do sistema por gotas que economiza melhor a água e também melhora a qualidade das uvas. Cada apelação pode decidir se eles aprovam irrigação ou não. iv)

Cultivo seco, com raízes profundas sobrevivendo a épocas secas, e produzindo pequenas uvas de alta qualidade, com certeza é algo positivo, mas quando isso simplesmente não é possível, ao menos a cuidadosa e restrita conservação das gotas de água nos vinhedos vai ser cada vez mais importante.
   


  i)  Fonte: Jancis Robinson: ‘Ron of Jasper Hill on irrigation’
  ii) Ver: Water Footprint
  iii) Fonte: BBC: ‘Costing the Earth – California Gasping’
  iv) Fonte: Jancis Robinson: ‘Irrigation now official in France’