Foto: National Resources Conservation Service


 Essa é a opinião de Ron Laughton da vinícola biodinâmica Jasper Hill, em Heathcote, no estado australiano de Victoria.  Para muitos pode ser visto como um argumento extremo e controverso, que exclui a maior parte da viticultura do novo mundo. Mas Rob Laughton está convicto que viticultura deve ser seca, sem irrigação. Ele considera que plantas se desenvolveram antigamente de forma natural, sem manipulação do ser humano, e pensa que independente de qual planta você está cultivando, se você precisa irrigar, você está simplesmente no lugar errado. i)

Mesmo uma opinião controversa serve para lembrar algumas considerações importantes. No contexto das limitações dos recursos naturais no mundo, a preservação de água para gerações futuras é vital. O rastro de uso de água ‘water footprint’ demonstra que na média da produção global de vinho, precisa 120 litros de água para produzir uma taça de vinho de 125 ml.  Para produzir leite, o uso de água é ainda maior, e para fazer cerveja um pouco menos. O uso de água para produzir nossos alimentos básicos é surpreendentemente alto. ii)

Na Califórnia, a limitação é demonstrada pela severa falta de água. Os problemas são tão graves, que muitas pessoas que vivem na região percebem que isso vai ser uma das questões essenciais para sobrevivência do ser humano. A Califórnia depende completamente de um complexo sistema de fornecimento de água. Los Angeles é construída perto de um deserto que depende completamente desse sistema que agora chegou no limite. Califórnia em principio é uma região árida parecida ao Egito. Com fornecimento de água fixo e limitado e com uma população que vai chegar a 50 milhões no meio de século, os californianos sabem que eles precisam mudar radicalmente a maneira do uso de água. ‘The Delta Stewardship Council’ tem uma ordem do governador de apresentar um plano com uma solução em janeiro de 2012. Mesmo com a falta de água, os californianos vivem com medo de chuvas extremas e inundações de rios, especialmente ao redor de Sacramento. O delta do rio Sacramento é a fonte das riquezas na Califórnia, fornecendo a água potável e água para a irrigação da agricultura intensa no estado, via um sistema de canais e barragens. Nos momentos de seca a demanda é tão alta que retira até grandes peixes como salmões de dentro das bombas. A população de peixes e o famoso salmão Chinook nesses rios estão acabando.
Os sistemas de canais e barragens foram desenhados com cálculos no clima dos anos 20, mas hoje em dia as suposições não são mais válidas com um clima mais extremo, com secas e chuvas fortes. Uma ideia seria fazer uma barragem ainda mais alta, maior, colocando mais terra abaixo da água, destruindo afluentes e ecossistemas.  Não há uma solução sem problemas, e a questão levantada seria se realmente a antiga ideia de bombear água para regiões desérticas para agricultura e viticultura é sustentável. iii)

Muitas outras regiões no mundo confrontam problemas similares com irrigação e conservação de água para um futuro sustentável. Na Europa, a irrigação na viticultura tradicionalmente não é permitida. As regras originalmente não eram para conservar água, mas para preservar a expressão das condições das diferentes regiões e climas. Com a irrigação, a influência do clima e condições são compensadas, e com resultado as safras ficam mais iguais e também a irrigação diminui a influência das diferentes regiões. O resultado é um vinho mais uniforme, com menos diferenças entre diferentes ‘terroirs’ e safras.
A Espanha, que tem várias regiões secas e áridas, legalizou a irrigação em 1996, o que estimulou o cultivo com maior rendimento em algumas partes do país. Na Itália e Portugal há várias regiões com irrigação na viticultura.  Nos casos em que a irrigação é feita em ampla escala, as raízes ficam mais na superfície do solo, e com alto rendimento de uvas com menos concentração de sabores. Fora da Califórnia, outras grandes regiões no novo mundo que dependem completamente de irrigação são regiões secas chilenas no Vale Central e Riverina na Austrália. A região árida do interior de New South Wales, chamada Riverina, foi a base do cultivo de frutas e uvas em grande escala, principalmente pelas famílias de imigrantes italianos. Em principio, irrigar terras desérticas é o jeito mais barato para produzir grandes volumes de vinhos baratos, mas esse começa a ser um cultivo preocupante para a sustentabilidade em geral.

De outro lado, com foco na qualidade existe viticultura com uma irrigação mais precisa, normalmente com irrigação por gota. Existem técnicas para estimular que raízes fiquem mais profundas, que dependam menos de irrigação e aumentem a qualidade da uva (pode ser gotas de um lado da raiz só com um estresse da videira que deixa de continuar a trabalhar duro fornecendo uvas mais concentradas). Assim eles conseguem uvas com tamanhos menores e com sabores mais intensos. Existem também muitas regiões como em Barossa na Austrália, que tradicionalmente sempre houve um cultivo seco sem irrigação, mas onde os viticultores têm uma ajuda de irrigação por gota, usada de uma maneira limitada, só em época de seca, apenas como um apoio em situações mais extremas. Com o aquecimento global, um clima mais irregular e extremo, com áreas ficando mais secas, muitos vinhedos vão começar a pensar em irrigação como apoio ou solução, também no sul da Europa. 
Ironicamente na França foi aprovado em 2007 a irrigação, mas sem aprovação do sistema por gotas que economiza melhor a água e também melhora a qualidade das uvas. Cada apelação pode decidir se eles aprovam irrigação ou não. iv)

Cultivo seco, com raízes profundas sobrevivendo a épocas secas, e produzindo pequenas uvas de alta qualidade, com certeza é algo positivo, mas quando isso simplesmente não é possível, ao menos a cuidadosa e restrita conservação das gotas de água nos vinhedos vai ser cada vez mais importante.
   


  i)  Fonte: Jancis Robinson: ‘Ron of Jasper Hill on irrigation’
  ii) Ver: Water Footprint
  iii) Fonte: BBC: ‘Costing the Earth – California Gasping’
  iv) Fonte: Jancis Robinson: ‘Irrigation now official in France’